quinta-feira, 3 de abril de 2008

A menina da escadaria

Toda noite, quando vou ao curso, desço na estação do metrô Trianon-Masp e subo as escadas. São escadas comuns, não são rolantes. Cinzenta, feita daquelas pedras lisas. Fria e suja. Por lá, sobem e descem pessoas que não se conhecem, que não se falam e mal se olham. As vezes, vejo mendigos passando por ali. Geralmente, ficam nas ruas. Suas roupas são como as pedras da escada: cinza, suja, desgastada. Esse é um lado de São Paulo.
No meio desse tumulto, desse cenário triste, eu vejo uma menina. Ela tem cabelos castanhos-claros, olhos que estão entre o verde e o mel. Sua pele é branquinha, ela usa uniforme das escolas da prefeitura, naquele tom azul royal. Ela é um contraste. Sua altura é diferente dos que circulam por ali, suas roupas diferem das pessoas e sua presença traz um "clima" diferente ao local, coisa que só as crianças conseguem fazer. Ela, caro leitor, vende balas. São uns "drops" cor-de-rosa que ficam dentro de uma caixinha de papelão. Fica sentada no meio da escada, do lado direito (pra quem sobe).
Todos passam e olham pra pequenina. Deve ter entre 7 e 9 anos. Alguns, com olhares de sensibilidade. Outros, com olhares frios de quem se acostumou, apenas, a cuidar de mesmo. Quando passo por ela, sinto o coração doer. Mesmo ela estando sempre alegre, cantando aquelas musiquinhas escolares, gesticulando, fingindo que tem brinquedos.
Algumas vezes, alguém pára e conversa com ela, outros, dão material escolar. Já pensei em dar um trocado, em comprar umas balas, porém, isso não ajuda. Pode ser solução temporária, mas, não é definitiva. No frio, no calor ou na chuva, eu vejo aquela criança na escadaria do metrô e não sei a razão dela estar ali. Se alguém a explora, se ela ajuda alguém que não pode se sustentar. Eu só sei que aquele pontinho azul no meio da multidão não deveria estar ali. O que nós podemos fazer por ela e por tantas outras crianças que estão espalhadas por aí? Dinheiro não vai adiantar. Dar comida não adianta. É difícil, mas, isso engloba muitas coisas, inclusive aqueles que colocamos no poder. No entanto, não cabe só a eles resolver essa situação.
Eu espero que a garotinha não precise mais ficar na escada, algum dia.

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